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“Como subir o vulcão Etna, na Sicília – guia completo”

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É difícil pensar na Sicília sem lembrar do Etna. E mais difícil ainda é ir para a costa leste da Sicília e não notá-lo. O maior vulcão ativo da Europa fora do Cáucaso é imponente e não passa despercebido. Até mesmo quem nunca pensou em chegar tão perto de um vulcão em atividade, fica curioso. Mas você sabia que andar sobre as suas crateras não é tão difícil assim? Neste post vou te contar, tim-tim por tim-tim, como subir o vulcão Etna, na Sicília.

Mas antes disso, vamos a algumas curiosidades! 

O Etna fica numa área de subducção*, na fronteira das pacas tectônicas africana e euroasiática, onde a primeira está sendo empurrada para debaixo da segunda. Nessa zona, uma janela se abriu na placa africana, permitindo a liberação do magma.

* A subducção acontece quando duas placas tectônicas se chocam e causam o afundamento da placa mais pesada.

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O magma expelido pelo Etna é rico em sílica, o que o torna mais viscoso (menos fluído) e, basicamente, faz com que a lava não se espalhe rapidamente – por isso os estragos não costumam ser tão grandes.

Além de ser um vulcão ativo, as suas erupções – do tipo estromboliano – são frequentes. Aliás, há uma boa chance de ele estar em erupção durante a sua visita (foi assim durante a minha). Apesar disso, a grande maioria das erupções são inofensivas. A última mais potente aconteceu em 2002, mas não dá pra esquecer da sua maior explosão conhecida, de 1669, que destruiu várias pequenas cidades e chegou até Catânia.

A altura do Etna varia a cada erupção, mas atualmente supera os 3300 m. Pra se ter uma ideia, ele é quase 3 vezes maior que o Vesúvio, responsável pela destruição das cidades de Pompéia e Herculano – apesar de ser potencialmente menos perigoso que o vulcão napolitano.

E, embora o cenário vulcânico assuste quem não está acostumado, os sicilianos não têm uma relação negativa com ele não. Muito pelo contrário! A verdade é que o Etna, através do turismo e da agricultura (já que o solo vulcânico é muito fértil), é a principal fonte de renda da ilha. Tanto é que cerca de 25% da população da Sicília mora nas suas encostas. Além disso, o povo siciliano é bastante religioso e acredita muito na proteção dos seus padroeiros.

Confira aqui todos os nossos posts sobre a Sicília.

COMO SUBIR O VULCÃO ETNA, NA SICÍLIA

Um fato importante sobre o vulcão Etna, na Sicília, é que ele é realmente muito grande. Com cerca de 1.190km² de extensão, tem quase o dobro do tamanho da cidade de Nova Iorque, só pra se ter uma ideia dimensão.

Além disso, diferente de outros vulcões famosos, o Etna não é feito de uma única cratera principal e não possui um formato cônico perfeito. A verdade é que existem centenas de crateras em toda a sua extensão, das quais a grande parte já foi extinta (atualmente existem apenas 5 ativas).

Basicamente, é muito difícil percorrer todo o seu território. Por isso, o Parque do Etna é divido em Etna Norte e Etna Sul.

No Etna Sul é onde o cenário vulcânico realmente ganha destaque. É lá que se encontram as crateras mais altas e ativas e também onde há uma estrutura turística mais desenvolvida.

O Etna Norte é igualmente interessante, mas bastante diferente. Como a altitude na parte norte é menor, as montanhas lávicas dão espaço para a vegetação (existem bosques bem bonitos, por sinal). Também é no sopé da área norte que surge grande parte das famosas vinícolas do Etna e a Gola dell’Alcantara, um desfiladeiro de lava banhado pelo rio Alcântara.

Eu tive a oportunidade de conhecer os dois lados do Etna e posso afirmar que não existe um melhor que o outro. São coisas diferentes!

Mas, para quem opta por conhecer apenas um lado, o Etna Sul é o que garante uma experiência mais única e pitoresca. Por isso, neste post, vou me ater ao lado sul do Etna.

Chegando à base do Etna Sul (Crateras Silvestres) – 1900m

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Crateras Silvestres vistas de cima. No lado direito, o Rifugio Sapienza

O ponto de partida de qualquer tour ao Etna Sul é o Rifugio Sapienza, no Município de Nicolosi. O hotel e restaurante fica no sopé do Monte Etna, a 1.923 m de altitude.

Nos arredores do Rifugio Sapienza existem as Crateras Silvestres, que foram formadas numa erupção de 1892 e estão inativas. Essas crateras podem ser visitadas sem um guia e não exigem muito fisicamente, sendo a melhor opção para quem tem crianças pequenas ou possui alguma limitação física.

O ideal, para quem pretende subir o vulcão Etna, é fazer base na cidade de Catânia ou Taormina, já que além de essas serem as cidades mais turísticas da região, também são logisticamente mais vantajosas para a realização dos tours.

Para chegar até o Rifugio Sapienza, você terá 3 opções:

De carro:

Sem sombra de dúvidas, alugar um carro é a maneira mais prática para chegar ao Rifugio Sapienza. Essa opção irá permitir mais liberdade do que o ônibus e provavelmente sairá mais barata que o transfer (a menos que você esteja sozinho/a).

De Catânia dá cerca de 1h de estrada. Ao simular a rota no Google Maps, ele vai te indicar duas rotas: uma pela Via Catania e outra pela Strada Provinciale 92. A segunda é mais sinuosa, mas o trânsito é menos intenso.

Já de Taormina é mais prático seguir a rota que passa por Zafferana Etnea e segue a Strada Provinciale 92. O trajeto também dura cerca de 1h.

Dica: pra quem vai no verão, recomendo reservar o carro com a maior antecedência possível. Existe muita procura nessa época e o aluguel de última hora fica muito mais caro.

De ônibus:

Já falei isso em outros posts, mas repito: infelizmente, a Sicília não é um bom lugar para depender do transporte público. Para acessar o vulcão Etna, não é diferente.

A empresa AST é a única que vai até o Rifugio Sapienza. Ela possui apenas um ônibus diário partindo de Catania, que sai às 8:15h e chega às 10:15h. O retorno é às 16:30h. O bilhete de ida e volta custa € 6,60 e pode ser comprado no embarque (verifique os dados atualizados no site oficial antes da sua viagem).

Para quem está em Taormina, não existe nenhuma opção de transporte público viável.

E, mesmo para quem sai de Catania, o grande problema é que o horário é muito limitado. Não dá pra fazer praticamente nenhum tour guiado ao vulcão, já que eles normalmente começam mais cedo ou terminam mais tarde. Por isso, acredito que essa só é uma opção viável para quem vai conhecer apenas as Crateras Silvestres ou, no máximo, fazer um tour express (funivia ou funivia + 4×4), que veremos mais adiante.

De transfer:

Para quem escolhe fazer um tour guiado no vulcão Etna (o que eu altamente recomendo), muitas empresas oferecem a opção de transfer partinho de Catânia ou Taormina. Apesar de essa ser normalmente a opção mais cara, também é a mais confortável, já que você não terá que se preocupar com estacionamento ou dirigir em estradas sinuosas.

Além disso, para quem viaja sozinho o transfer pode sair mais em conta do que alugar um carro.

Chegando aos 2.500m de altitude – início da área do cume

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Aos 2.500m de altitude começa a zona mais alta do vulcão Etna (zone sommitali). Aliás, essa é a altitude máxima que pode ser acessada sem um guia alpino ou vulcanólogo.

Para chegar aos 2.500m, primeiro você precisa chegar no Rifugio Sapienza. De lá, é possível fazer um trekking – o que eu não aconselho muito, já que são 600m de elevação andando em areia lávica – ou simplesmente pegar um bondinho (funivia). Viu como subir o vulcão Etna não é tão difícil?

A Funivia dell’Etna é quem opera esse serviço, mas ele não sai barato – a ida e volta custa em torno de € 30.

Chegando aos 2.500m de altitude, a sua primeira opção será circular nas crateras ao redor da funivia e, se tiver ânimo, descer a pé até o Rifugio Sapienza enquanto admira a paisagem pelo caminho (a essa altura, todas são inativas). A descida, como é de se imaginar, não é tão difícil quanto a subida. Mas o terreno é bastante íngreme, então é preciso tomar cuidado.

A segunda opção é seguir com algum tour guiado, seja nos arredores ou até atingir altitudes mais elevadas. 

Como os tours guiados são operados por diversas agências privadas, existe uma infinidade de opções (e todas devem ser contratadas previamente). A seguir, vou falar sobre os 3 tipos de excursões mais comuns, lembrando que não são os únicos existentes.

2.750m de altitude – crateras do topo

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Vista a 2.750m. Nesse momento, havia uma cratera em erupção

Para quem quer experimentar uma visão panorâmica das crateras do cume e não deseja ou não pode chegar até o topo (veremos que nem sempre é possível), as excursões até 2.750m de altitude são uma boa pedida.

Cada guia tem a sua própria rota e ela também pode variar de acordo com as condições do vulcão.

Esse tipo de excursão normalmente inclui pegar a funivia até os 2.500m e fazer um trekking no trecho restante, passando por diversas crateras inativas.

O nível de dificuldade do trekking é moderado. Por isso, considerando também a altitude alcançada, não é recomendado para pessoas com problemas cardíacos.

3.000m de altitude – Funivia + 4×4

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Para quem quer chegar mais perto do cume e não pode ou não está disposto a fazer um trekking pesado em terreno arenoso, essa é a melhor opção.

A excursão até os 3.000m de altitude pode ser feita de várias formas, mas a mais comum é usando a funivia até os 2.500m e o transporte em um caminhão/ônibus com tração 4×4 até os 3.000m.

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Caminhões prontos para subir

Essa opção é oferecida tanto pela Funivia dell’Etna, que é quem opera os micro-ônibus (esse passeio pode ser comprado na hora), quanto por agências de turismo com guias próprios.

A única ressalva para a excursão oferecida pela Funivia, pelo que eu  já ouvi de algumas pessoas que a fizeram, é que ela é muito rápida. Parece que os turistas não têm muito tempo no cume e também não recebem muitas explicações dos guias (que são obrigatórios e acompanham no ônibus), fazendo da experiência algo muito superficial.

Se essa for a sua escolha, sugiro buscar por agências com guias próprios e verificar se o programa do passeio se adequa às expectativas.

3.300m de altitude: subida até o cume

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Em um dia como esse, não é possível chegar lá

O máximo de aventura que se pode no vulcão Etna é chegar ao cume de uma das crateras ativas. Atualmente são 5, mas esse número pode mudar rapidamente.

Como eu já mencionei, o Etna é um vulcão ativo e as erupções são constantes. Nos últimos tempos, ele tem apresentado cerca de 2 erupções por ano, mas a magnitude e duração de cada uma pode variar bastante.

Por isso, essa excursão depende do status de atividade do vulcão. Por uma questão de segurança, não é possível fazer o trekking aos pontos mais altos em caso de erupção – daí a importância dos guias certificados.

Quando a subida é viável, ela pode ser feita tanto com o auxílio da funivia e do 4×4, quanto somente a pé. Mas é bom saber que o nível do trekking é intenso e, por isso, só é indicado para quem tem um bom preparo físico. Além disso, estamos falando de um vulcão em atividade, então obviamente é um passeio que envolve riscos. Por isso, só feche a excursão com uma empresa confiável.

COMO SUBI O VULCÃO ETNA: MINHA EXPERIÊNCIA

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Falei dos três tipos de passeios mais comuns que são feitos no Etna Sul e agora vou contar qual escolhi e como foi a minha experiência.

Eu morei 3 meses na Sicília e fiz base por 1 mês na Catânia. Assim que cheguei na cidade, o vulcão Etna entrou em erupção. Tinha dias que só de andar um pouco pela cidade, minha pele ficava cheia de cinzas.

Eu queria muito fazer o trekking ao cume, mas durante todo aquele mês a atividade esteve forte, então não seria possível.

Pesquisei bastante, conversei com várias agências e acabei optando por fazer o tour de 2.750m com a Etna Way (eles também fazem outros tours além desse, inclusive ao cume).

Como foi a excursão:

Toda a excursão foi acompanhada pelo guia Claudio, que é super simpático e profundo conhecedor do Etna e de toda a região. Ele fala inglês, italiano e alemão.

A grande vantagem da agência, na minha opinião, é que ela só faz tours com grupos bem pequenos, o que acabou garantindo uma experiência mais personalizada. Eu e o Antonio (meu namorado) fizemos o passeio com apenas mais dois casais.

Começamos por volta das 9h no Rifugio Sapienza, onde compramos sanduíches e água, alugamos botas de trekking e pegamos a funivia para chegar aos 2.500m.

Após subir a funivia, iniciamos o trekking. Passamos por diversas crateras extintas, entramos em algumas e pudemos entender, a partir das explicações do guia, diversas particularidades do vulcão Etna – desde a sua formação e questões geológicas até histórias e crenças do povo local. A experiência foi realmente enriquecedora.

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Uma das crateras extintas

Próximo da hora do almoço, subimos nas extremidades de uma cratera com vista para o cume em erupção.

Esse com certeza foi o ponto alto do passeio! Enquanto fazíamos o nosso piquenique, pudemos presenciar um show incrível do Etna: naquele momento, uma das crateras estava muito ativa. O estrondo das explosões era ouvido de longe. Com um binóculo, era possível ver pedras enormes sendo expulsas do seu interior. Nunca pensei em presenciar uma cena como essa!

Depois do show, começamos a nossa descida. Ao invés de pegar a funivia, fizemos o retorno todo a pé. Foi bastante divertido (afinal, descer é bem mais fácil que subir) e, de bônus, pudemos ver as Crateras Silvestres de cima. Esse é certamente o melhor ângulo delas.

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Hora da descida

Chegando ao Rifúgio Sapienza, o guia ainda nos levou até uma caverna lávica próxima dali, munidos de capacetes e lanternas. Foi bem interessante.

OUTRAS OPÇÕES DE PASSEIOS

Citei os tipos de excursões mais tradicionais no Etna Sul – e que, na minha opinião, valem mais a pena -, mas existem dezenas agências na região que oferecem opções de passeios bem diversificadas.

Quem vai no inverno, por exemplo, pode até mesmo esquiar no Etna (no alto da funivia existe uma estação).

Também é possível fazer passeios de mountain bike e quadriciclo nos arredores do Rifugio Sapienza. Pra quem estiver com um orçamento bem mais folgado, dá até pra sobrevoar o Etna em um helicóptero. Tudo vai depender das suas preferências – e orçamento.

Por isso, não se limite às opções indicadas e procure fazer a atividade que mais combina com você.

CUIDADOS ANTES DA EXCURSÃO

Você decidiu subir o vulcão Etna, contratou uma excursão e está pronto para começar? Então atenção às seguintes dicas:

Vista-se apropriadamente

Mesmo durante o verão, tenha em mente que o Etna tem uma altitude elevada. Por isso, além de a temperatura ser mais baixa do que no resto da Sicília, costuma ventar bastante.

Nos meses mais quentes, leve uma fleece e uma jaqueta corta vento (se não tiver, é possível alugar no Rifugio Sapienza a um custo de 5 a 10 € – em grupo dá pra negociar).

Durante o inverno a superfície do Etna chega a ficar nevada (não à toa existe uma estação de ski). Assim, vale acrescentar gorro, luvas, cachecol e calças quentes (corta vento, de preferência).

Nos pés, o ideal é usar botas de trekking com cano não muito curto – as pedras são pequenas e insistem em entrar no calçado. Também é possível alugar botas no Rifugio Sapienza (fiz isso e paguei € 5).

Não esqueça o protetor solar

Dependendo do tour que você escolher para subir o vulcão Etna, poderá passar horas debaixo do sol sem nenhuma sombra. Você provavelmente não sentirá o sol porque estará frio, mas te garanto que o estrago pode ser grande. Por isso, o ideal é levar um protetor solar na mochila e reaplicar quando necessário.

Leve água e comida

A menos que você vá somente subir e descer a funivia, é importante levar algum lanche e muita água para o passeio.
Acima do Rifugio Sapienza não existe nenhum outro ponto comercial, então essa é a sua última chance. Aliás, próximo do Rifugio Sapienza existe um bar/restaurante chamado Monte Gebel, que faz bons sanduíches a preços justos.

Atenção às condições físicas

Cuidado com os trekkings se você possui crianças pequenas, alguma limitação física ou problemas cardíacos. Lembre-se que além do esforço de caminhar (com muita subida) em um terreno arenoso, a altitude exige muito fisicamente. Por isso, todo cuidado é pouco na hora de escolher a excursão.

SUBIR O VULCÃO ETNA VALE A PENA?

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Sem sombra de dúvidas, a experiência de subir o vulcão Etna vale muito a pena!

O visual lunático das crateras, o solo preto e o litoral siciliano de pano de fundo conferem um cenário realmente espetacular. Certamente, uma passagem pelo Etna é algo que não pode ficar de fora de um roteiro para a Sicília.

E, como você viu, subir o vulcão Etna não precisa ser tão difícil assim. A dica é se preparar com antecedência e escolher o tipo de expedição que mais combina com o seu perfil.

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