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“Ilha de Marajó: o que fazer, onde se hospedar e dicas”

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Quando contei para os meus amigos e meus familiares que eu estava de malas prontas para ir para a Ilha de Marajó, no Pará, muita gente torceu o nariz e me perguntou onde é que eu estava com a cabeça. Achei graça na época e não dei muita bola, mas no fundo entendia o porquê de eles pensarem assim.

A ilha é grandiosa — em cultura, em tamanho e em belezas naturais —, mas ainda é muito subestimada. Pelas fotos da internet, realmente não é daqueles destinos que você bate o olho e fica morrendo de vontade de conhecer. Mas é aí que está o segredo. Sem aquela expectativa de encontrar lugares tão perfeitos e irreais como os que postam no Instagram, você embarca sem esperar muita coisa. As boas surpresas vêm na proporção inversa. Vai por mim.

A verdade é que o Marajó tem um je ne sais quoi que só indo até lá para entender. É rústico, sim, e não tem estrutura para quem faz questão de resort, sombra e água fresca o tempo inteiro. Programão por lá é navegar em igarapé, tomar banho de rio, provar queijo de búfala, conhecer as oficinas dos artesãos locais e se jogar nas apresentações de carimbó.

Ah, e aquela história de que há búfalos por todos lados é (quase) verdade. A coisa mais comum é estar andando pelas ruas e topar com vários deles no meio do caminho. No começo você estranha e fica com o pé o atrás, mas, quando percebe que são domesticados e não vão fazer nada (a não ser que mexa com eles, é claro), logo acostuma e para de se impressionar.

Neste post, vou contar como é viajar para a Ilha de Marajó e dar algumas dicas fundamentais que você precisa saber antes de embarcar.

QUANDO IR PARA A ILHA DE MARAJÓ

O clima na Ilha de Marajó é refém do esquema de chuvas amazônico. Faz calor o ano todo, mas no verão é especialmente quente.

  • De julho a novembro, chove menos. Coincide com a alta temporada no Marajó, quando a ilha fica mais cheia de turistas e de estrangeiros. Os preços consequentemente sobem;
  • De dezembro a junho, o volume de chuvas já é maior e pode atrapalhar alguns passeios. Em compensação, as temperaturas e os preços caem um pouco.

Arrisquei e fui no fim de janeiro, em pleno inverno amazônico. Peguei alguns momentos de chuva forte, mas nada que atrapalhasse a programação. Como é baixa temporada, éramos quase os únicos turistas em Soure. Foi uma experiência bem interessante.

QUANTO TEMPO FICAR NA ILHA DE MARAJÓ

O deslocamento de Belém até a Ilha de Marajó não é dos mais simples e ficar só 2 dias, como muita gente recomenda, é um pecado. Tudo bem, se você apertar o passo, realmente dá tempo de conhecer todos os “obrigatórios”, digamos assim.

Na minha primeira vez, passei 3 noites e me arrependo muito de não ter estendido mais. Se pudesse, teria ficado uma semana inteira. Fácil, fácil. A vida no Marajó passa num outro ritmo e não demora muito para você querer entrar na onda. Aposto que logo de cara vai ficar morrendo de vontade de desacelerar (e de esticar a viagem) também.

Não preciso nem falar que o tour bate-volta saindo de Belém é um erro sem fim, né? Se te oferecerem essa opção, foge que é cilada.

COMO CHEGAR ATÉ NA ILHA DE MARAJÓ

Antes de seguir viagem para o Marajó, você vai precisar necessariamente fazer uma paradinha em Belém. É de lá que saem as lanchas rápidas que levam até a ilha. Quem faz a travessia direta até a cidade de Soure é a Master Motors/Expresso Golfinho e o ponto de partida é o Terminal Hidroviário de Belém, pertinho da Estação das Docas.

Travessia Belém → Salvaterra → Soure

De segunda a sábado, com saídas às 8h15

Travessia Soure → Salvaterra → Belém

De segunda a sábado, com saídas às 5h30

A viagem demora 2 horas mais ou menos e custa R$ 48. Num geral é tranquila e a embarcação é confortável, mas chacoalha um pouco em alguns trechos. Vá preparado.

Se for planejar a viagem por conta, a logística de transporte é a parte que mais vai te custar tempo e paciência. O esquema para ir de Belém até o Marajó mudou várias vezes nos últimos anos. Cuidado com o que lê nos blogs e sites na internet, vários estão desatualizados (inclusive os das próprias empresas). O melhor é ligar no Terminal Hidroviário e se informar sobre horários e saídas.

Li que era bom reservar as passagens com antecedência. Com muito custo, consegui um telefone do guichê do terminal e deixei tudo reservado. Ainda assim, não estava muito segura e pedi para uma agência de turismo também fazer isso por mim. Na teoria, saí de casa com duas passagens em meu nome. Cheguei no terminal com antecedência, fiquei esperando numa fila enorme para chegar a minha vez e descobrir que não havia reserva nenhuma. Aconteceu com outros turistas também. Por sorte, ainda tinha lugar na lancha e consegui embarcar. Não sei se é algo comum de acontecer, mas acho que vale o alerta.

Para quem quer levar o carro para o Marajó, é outra história. O embarque é no porto de Terminal Hidroviário de Icoaraci, que fica a 20 km do centro de Belém. As balsas são operadas pela Henvil e levam até a cidade de Salvaterra (Porto de Camará). A viagem é um pouco mais demorada. Se for se hospedar em Soure, no próprio Porto de Camará há outra balsa que leva até a cidade. De novo, melhor checar os horários e reservar os bilhetes com antecedência.

COMO CIRCULAR NA ILHA DE MARAJÓ

Se você for até o Marajó de balsa e levar seu carro, consegue tranquilamente rodar por lá e ir até quase todos os atrativos. Soure tem alguns postos de gasolina e não há muito com o que se preocupar.

Se for de lancha rápida, precisa considerar como vai fazer com os deslocamentos assim que chegar na ilha. Para circular por lá, a maioria dos moradores anda de moto e usa e abusa dos mototáxis. É barato, rápido e eles costumam ser bem pontuais quando combinado com antecedência. Alguns turistas também usam essa opção. Se for seu caso, pense nisso na hora de decidir o que vai levar na bagagem. Para facilitar o transporte, economize nas roupas e prefira mochilas. Malas de rodinha só em último caso.

Como não sou fã de andar de moto, preferi contratar uma agência local e fechar os passeios e todos os transfers com eles. Não é algo que costumo fazer quando viajo, mas achei que no Marajó valeu a pena. Ainda tive a sorte de estar acompanhada de dois guias locais ótimos, que me contaram causos e mais causos da região.

Algumas pessoas comentaram que não é muito tranquilo andar a pé por Soure, principalmente à noite. Depois de sentir o clima da cidade, me senti segura e arrisquei conhecer alguns lugares andando mesmo, inclusive depois das 21h. Não vi nenhum problema, mas fica aí o alerta.

ONDE FICAR NA ILHA DE MARAJÓ

A Ilha de Marajó tem 12 municípios. A parte mais turística se divide entre Soure e Salvaterra.

Na minha opinião, para economizar tempo e dinheiro, Soure é o melhor lugar para usar como base. Ela é pequena, mas tem mercadinho, boa variedade de restaurantes e está mais perto dos atrativos turísticos mais procurados. É bem mais prático e você evita o vaivém de balsa entre as duas cidades.

Uma curiosidade: muita gente não sabe, mas Soure é uma cidade planejada, assim como Brasília e Curitiba. As ruas e as travessas são paralelas e numeradas. Para quem não está acostumado, pode ser um pouco confuso no começo, mas, depois que você entende como funciona, fica muito mais fácil de se localizar e ter noção das distâncias.

Hotel Casarão da Amazônia 

De longe, a melhor opção de hospedagem de Soure. É um pouco mais cara em comparação com as outras, mas você paga por pequenos confortos, como ter piscina, ar condicionado, wi-fi e rede na varanda. O café da manhã é simples, com itens da culinária regional.

Pousada O Canto do Francês 

As diárias são mais em conta. Em compensação, a infraestrutura também é um pouco mais modesta. Os apartamentos são confortáveis, com TV e ar condicionado. Também serve almoço para os hóspedes (precisa reservar antes).

O QUE FAZER NA ILHA DE MARAJÓ

Boa parte dos atrativos turísticos mais famosos da ilha ficam na região de Soure, não muito longe do centrinho. Para ir até Salvaterra ou Joanes, vai precisar pegar a balsa e cruzar o rio. Para os passeios de barco, recomendo fechar com as agências de turismo locais. Já os demais podem ser feitos por conta.

Furo do Miguelão

Os barcos para o passeio saem das margens do Rio Paracauari. Os turistas sobem nas rabetas — pequenos barcos motorizados — e vão curtindo a paisagem até chegar ao lugar onde fica o furo.

Diz a lenda que ele foi aberto há muitos e muitos anos, para encurtar a navegação pela região. A embarcação se embrenha na mata e vai seguindo num caminho cercado por árvores. Há pelo menos uma parada para observar a fauna e tomar banho de rio.

Fazenda São Jerônimo 

Para quem tem pouco tempo no Marajó, uma visita à Fazenda São Jerônimo é o passeio certeiro. Funciona como um pot-pourri de experiências que os turistas podem encontrar na ilha. Num circuito de umas duas horas, você faz de tudo um pouco: caminha pela mata, monta em búfalos (se quiser), atravessa uma passarela sobre o manguezal, desce um igarapé e vai até a Praia do Goiabal, onde já foi gravado o programa No Limite.

O horário das saídas para o passeio varia todos os dias, porque depende das marés. No começo de cada mês, uma tabela com essas informações é postada na página do Facebook da fazenda.

Arte Mangue Marajó 

O artista Ronaldo Guedes é um dos mais famosos da ilha, por produzir cerâmicas inspiradas em diferentes etnias que já viveram no Marajó. Em seu ateliê, Arte Mangue Marajó, dá para acompanhar de perto o trabalho dos artesãos.

Se tiver curiosidade, eles explicam as técnicas e instrumentos que utilizam. O espaço também tem uma lojinha, com peças à venda. Uma boa oportunidade de comprar um souvenir diferente e autêntico.

Fazenda Mironga

Entre um passeio e outro, vale uma paradinha para conhecer a Fazenda Mironga e provar o tradicional queijo de búfala do Marajó.

A porteira fica aberta. É só entrar, estacionar o carro e escolher os produtos que quer levar. Funciona no esquema “pegue e pague”: você deixa o dinheiro na caixinha, pega o troco e vai embora.

Praia do Pesqueiro

Fica mais afastada, localizada numa vila de pescadores. A faixa de areia é enorme e tem várias redes e choupanas coloridas espalhadas por toda sua extensão. No canto esquerdo, há algumas dunas. Os restaurantes servem almoço e petiscos. Aos fins de semana, aparecem mais turistas (que às vezes levam caixinhas de som e acabam atrapalhando a vibe tranquila do lugar).

Ah, e não são todas as operadoras de celular que têm sinal por lá. Para garantir, melhor combinar com o motorista o horário da volta, para que ele possa te buscar.

E uma dica que vale para todas as praias do Marajó: sempre entre na água arrastando os pés, para não correr o risco de pisar em alguma arraia que possa estar por ali.

Praia da Barra Velha

É a opção para quem quer dar um mergulho sem precisar se afastar muito do centro urbano.

Saindo de Soure, você precisa pegar um trecho em estrada de terra e caminhar por uma plataforma (linda, por sinal) instalada em cima das raízes do mangue. Se tiver sorte, pode ser surpreendido por revoadas de guarás no meio do caminho.

Preste atenção à tábua de marés e se informe sobre o melhor horário para visitar, já que quando a água sobre muito, a faixa de areia some. Há alguns restaurantes para petiscar.

ONDE COMER NA ILHA DO MARAJÓ

Se seu objetivo é provar a culinária típica paraense, o Marajó é um prato cheio. Os restaurantes são simples, mas capricham nas receitas regionais. Não vá embora sem provar o Filé Marajoara, que é servido com muçarela de búfala. Ah, vale dizer que os filés são de búfalo também. Encontrar carne de vaca é raridade.

Aqui vão algumas dicas de restaurantes na ilha:

Restaurante Delícias da Nalva 

É o mais procurado pelos turistas. O forte são as receitas típicas e o temperinho caseiro. O Filé Marajoara de lá acompanha arroz, batata, banana frita e farofa com castanha-do-Pará. O pudim de cupuaçu com biscoito de castanha é divino.

Mega Burger 

Os lanches são grandes e as porções muito bem servidas. O cardápio tem opções clássicas de hambúrguer — de carne de búfalo, é claro — e combos mais exóticos, como o Muiraquitã, que leva queijo do Marajó, camarão e jambu refogado no tucupi.

Restaurante e Sorveteria da Celilda 

Não perde em nada para as sorveterias caras e da moda de Belém. O ambiente é simples e o atendimento super atencioso. Os carros-chefes são os sorvetes artesanais feitos à base leite de búfala e frutas amazônicas, como taperebá, uxi e açaí.

Mercado Municipal de Soure

Não é um restaurante, mas vale a pena entrar na lista. Foi recém-reformado e concentra várias barracas que vendem frutas, peixes e especiarias da região. É um jeito diferente de explorar a cultura e os sabores marajoaras. Vale a visita.

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